Nelson Gonçalves: o gaúcho "Voz de Ouro do Brasil" precisa voltar para casa
Com o impulso turístico gerado pelo Trem do Pampa, Sant'Ana do Livramento e o Rio Grande do Sul têm a oportunidade de unificar forças para transformar a memória do cantor em um marco cultural definitivo

*Por Voltencir Fleck | Radialista e Jornalista de Turismo
“Naquela mesa está faltando ele...” Os versos imortalizados nesta consagrada composição ecoam na memória afetiva de milhões de brasileiros como o retrato de uma grande ausência.
No entanto, uma lacuna histórica e cultural ainda maior insiste em permanecer na terra natal da nossa 'Voz de Ouro'.
Recentemente, enquanto eu conversava com um grande amigo sobre o potencial do turismo no Rio Grande do Sul, a Fronteira Brasil-Uruguai inevitavelmente tornou-se o centro do nosso diálogo.
Falávamos sobre o Trem do Pampa, esse magnífico atrativo turístico que surgiu para ser um verdadeiro divisor de águas.
O Trem do Pampa não criou a vocação turística da região do zero, mas funcionou como uma lente de aumento, um catalisador que finalmente fez os visitantes — e a própria região — despertarem para o potencial da gastronomia, dos vinhedos, dos negócios, da cultura e da história que já estavam consolidados ali há muito tempo.
Antes observados timidamente e tidos por muitos tão somente como um destino para o turismo de compras, esses atrativos hoje se consolidam em um polo de experiências.
O Trem do Pampa abriu os olhos do mercado para o que sempre esteve ali.
E foi dentro desse contexto que a nossa conversa tocou em uma memória viva que a nossa fronteira ainda guarda nos bastidores da história: o eterno Nelson Gonçalves.
Nascido em Sant’Ana do Livramento em 21 de junho de 1919, Antônio Gonçalves Filho mudou-se ainda criança com a família para o bairro do Brás, em São Paulo.
Foi no centro do país que ele se transformou na "Voz de Ouro do Brasil", o segundo maior vendedor de discos da história da nossa música.
Embora a vida e os grandes palcos o tenham mantido distante fisicamente, suas raízes fincaram-se definitivamente no solo da fronteira, e isso merece o devido reconhecimento.
Atualmente, a principal lembrança física dessa origem tão grandiosa em sua cidade natal resume-se a uma singela placa (foto) colocada em agosto de 1978 pela Câmara de Vereadores, na esquina das ruas Silveira Martins e Vasco Alves, indicando a casa onde ele nasceu.
A propósito, algo que muitas pessoas desconhecem é que o devido reconhecimento ao cantor já cruzou o estado, mas ainda não se consolidou onde deveria.
A ERS-389, conhecida como Estrada do Mar — rodovia que conecta os municípios de Osório a Torres no Litoral Norte do Rio Grande do Sul —, foi oficialmente batizada de Rodovia Nelson Gonçalves.
A homenagem partiu de um projeto de lei de autoria do então deputado (e hoje prefeito de Bagé) Luiz Fernando Mainardi, aprovado pela Assembleia Legislativa e sancionado pelo governador Eduardo Leite em dezembro de 2019.
Se o Litoral Norte gaúcho já estampa o nome da nossa "Voz de Ouro" em seus caminhos, por que a Fronteira, berço de sua história, não aproveita para celebrar definitivamente o seu filho ilustre?
O turismo moderno não se faz apenas com paisagens e compras; ele se alimenta, também, de identidade, de alma e de memória profunda.
Com a movimentação crescente e a sensibilidade gerada pelo Trem do Pampa, centenas de visitantes desembarcam semanalmente na região ávidos por experiências autênticas.
Trazer Nelson Gonçalves de volta para casa agora é o passo lógico para fortalecer a visibilidade local, projetando a região e o Rio Grande do Sul para o mundo.
Imagine o impacto cultural se a Estação Ferroviária de Sant'Ana do Livramento abrigasse uma imagem ou estátua do grande cantor.
Uma escultura dele sentado junto a uma mesa, permitindo que as pessoas dividam o espaço com ele em uma eterna fotografia, expressando o carinho do público e preenchendo, de forma poética, o vazio evocado pela canção "Naquela Mesa".
Este seria um ponto de parada obrigatório para recepcionar os visitantes, marcando o início e o fim da linda jornada pelos trilhos entre a Estação Central e a Estação de Palomas, localizada na zona rural do município.
Mais do que isso: quem sabe aquela histórica casa na Silveira Martins, esquina com a Vasco Alves, não guarda em si o potencial para deixar de ser apenas um ponto de passagem e evoluir para um Memorial definitivo?
Uma parada indispensável para que milhares de fãs celebrem, orgulhosos, as origens do artista.
O Trem do Pampa consolidou o potencial que sempre esteve ali.
Agora, é hora de usar esse mesmo amadurecimento do nosso turismo para fortalecer ainda mais este resgate cultural da nossa fronteira.
Trazer a memória de Nelson Gonçalves para o centro da experiência santanense é fazer justiça histórica.
Nelson Gonçalves cantou o Brasil inteiro, e está mais do que na hora de Sant'Ana do Livramento e de todo o Rio Grande do Sul unirem suas vozes para ecoar, com ainda mais orgulho, o legado desse eterno filho de ouro.
O cantor faleceu em 18 de abril de 1998, aos 78 anos, e em 2027 completaria 108 anos.
Sou seu fã com a mesma intensidade com que defendo e acredito nas potencialidades do turismo de Sant'Ana do Livramento e Rivera, que considero o segundo melhor destino do Rio Grande do Sul.
Que esta minha manifestação espontânea seja recebida como uma sugestão de quem carrega um profundo sentimento de pertencimento por este lugar tão especial: a nossa Fronteira da Paz — que une Sant'Ana do Livramento e Rivera — e traz consigo a certeza de que “quem conhece não esquece”, “difícil explicar, é preciso viver!”
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*VOLTENCIR FLECK | Radialista e Jornalista de Turismo
Editor dos Portais:
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